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Bahia registra mais de 1.600 casos de estupro contra crianças e jovens em 2024; polĂ­cia reporta apenas 30% das denĂșncias

Publicada em: 20/05/2025 06:33 - Bahia

Foto: FĂĄbio Rodrigues-Pozzebom / AgĂȘncia Brasil

A Bahia registrou 1.636 denĂșncias de estupro de vulnerĂĄvel, direcionado a crianças e jovens, no ano de 2024. É o que apontam os dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, canal do MinistĂ©rio dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), registrados a partir das denĂșncias do Disque 100. No entanto, os nĂșmeros da SecretĂĄria de Segurança PĂșblica (SSP-BA) contabilizam apenas 31,9% do nĂșmero divulgado pelo MinistĂ©rio. 

 

O Painel indica que foram gerados 967 protocolos de denĂșncias relacionadas a violĂȘncia sexual infantojuvenil. É por meio dos protocolos que as denĂșncias sĂŁo contabilizadas, jĂĄ que em um protocolo pode haver mais de uma denĂșncia. 

 

No mĂȘs em que ocorre a campanha do Maio Laranja, em combate ao abuso e Ă  exploração sexual infantil no Brasil, a PolĂ­cia Civil informou ao Bahia NotĂ­cias que foram registrados 522 casos de estupro contra crianças e jovens entre 0 a 17 anos no estado em 2024. Conforme os dados, as principais vĂ­timas sĂŁo as crianças de 12 a 17, que foram alvos de 448 casos registrados no ano passado; e 74 casos contabilizados contra crianças de 0 a 11 anos. 

 

Os nĂșmeros apontam para um cenĂĄrio alarmante de subnotificação deste tipo de violĂȘncia, que podem ser explicado por dois recortes de anĂĄlise: o cenĂĄrio da violĂȘncia e o perfil dos suspeitos. Mais da metade dos casos, cerca de 834 deles (50,9%), ocorreu na casa “onde a vĂ­tima e o suspeito residem”, indicando um contexto familiar de violĂȘncia sexual. Outros 280 ocorrem na casa da vĂ­tima e 267 na casa do suspeito. 

 

Os dados do Painel nĂŁo registram os possĂ­veis vĂ­nculos prĂ©vios entre a vĂ­tima e o suspeitos. Na anĂĄlise de perfil dos suspeitos deste tipo de crime, homens sĂŁo os principais suspeitos, registrados em 61,8% dos casos, enquanto mulheres sĂŁo as agressoras em 32,9% das denĂșncias. Os suspeitos tĂȘm, em sua maioria, uma idade entre 33 e 44 anos.

 

EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS 

A educação sexual Ă© uma das diretrizes do Plano Nacional de Prevenção PrimĂĄria do Risco Sexual Precoce e Gravidez na AdolescĂȘncia desde 2022. Conforme a cartilha oficial do MinistĂ©rio da SaĂșde (confira aqui), este tipo de conteĂșdo consiste em um “processo de ensino, esclarecimento, aprendizado e diĂĄlogo que pode ocorrer em para que a criança, o adolescente e o jovem possam aprender e discutir sobre a saĂșde nas prĂĄticas sexuais, relacionamentos, afetos, diversidade sexual, gĂȘnero, reprodução, entre outros assuntos”. 

 

Ao contrĂĄrio do que muitos pensam, um relatĂłrio da UNESCO (Organização das NaçÔes Unidas para a Educação, CiĂȘncia e Cultura, em portuguĂȘs), publicado em 2019 e baseado em 87 estudos de todo o mundo (confira aqui), indica que a abordagem da educação sexual nas escolas nĂŁo resultou em uma antecipação da iniciação sexual de crianças e adolescentes.

 

O Bahia NotĂ­cias conversou com o pedagogo Manoel Calazans, assessor especial da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC) para falar sobre o acolhimento de denĂșncias de abuso e exploração sexual infantojuvenis que chegam Ă s escolas baianas. 

 

“É um tema que exige muito cuidado da gente, principalmente de quem Ă© educador, de quem trabalha em escola, porque, muitas vezes, o primeiro local onde a criança,  adolescente, ou jovem relata qualquer caso de abuso Ă© na escola. EntĂŁo, a escola precisa ser muito atenta, sensĂ­vel a essas situaçÔes e saber a quem recorrer”, Ă© o que afirma o gestor. 

 

“O nosso trabalho com a Secretaria de Educação Ă© de orientação, entĂŁo a gente passa toda essa orientação aos gestores das escolas, sempre nas datas, a gente reforça isso junto aos diretores, nas publicaçÔes da secretaria, no nosso regimento. EntĂŁo, a gente faz isso de forma muito sistĂȘmica. Todo gestor de escola, ele Ă© o tempo todo alertado pela secretaria a ter um posicionamento proativo em relação a qualquer tipo de abuso ou exploração sexual de criança e de adolescente”, destacou Calazans. 

 

O alinhamento evita que os profissionais da educação sejam sobrecarregados com mais funçÔes alĂ©m da gestĂŁo acadĂȘmica e operacional das escolas. Manoel explica que, para as escolas estaduais baianas, que abrangem principalmente o ensino mĂ©dio para jovens entre 14 e 17 anos, Ă© importante contar com uma rede de apoio da sociedade civil. 

 

“A gente orienta os diretores das escolas e os diretores, por tabela, acabam orientando os professores e coordenadores pedagĂłgicos em relação Ă  questĂŁo do acolhimento, primeiro. Esse acolhimento, ele nĂŁo pode ser um Ășnico profissional assumir isso, isso Ă© uma questĂŁo de gestĂŁo da prĂłpria escola”, diz o professor Manoel. “EntĂŁo, o diretor escuta o relato por parte do profissional que ouviu, que teve o primeiro relato e aĂ­ encaminha para os conselhos tutelares, que agem de uma forma mais sistĂȘmica para acionar o MinistĂ©rio PĂșblico e as varas da infĂąncia”, explica. 

 

Com relação Ă  educação sexual nas escolas, o professor relata que a abordagem Ă© incluĂ­da nos estudos de sociologia e biologia, por exemplo, mantendo as caracterĂ­sticas da base curricular. 

 

“A gente jĂĄ tem uma nova abordagem para essa situação, que Ă© uma abordagem mais curricular, que Ă© quando a gente usa a questĂŁo, Ă©, sexualidade, gĂȘnero, diversidade sexual como eixo transversal, aparece nas nossas diretrizes como eixo. A gente trabalha como conteĂșdo”, conta. “Mas mesmo assim, a gente tambĂ©m tem orientação para qualquer tipo de violação, o diretor Ă© preparado para acionar a rede de proteção imediatamente”, detalha. 

 

“Inclusive nĂłs temos um grupo de psicĂłlogos e assistentes sociais que estĂŁo distribuĂ­dos em todos os nĂșcleos da rede. Esse grupo vai Ă  escola, o assistente social e o psicĂłlogo, faz a orientação emergencial quando, por exemplo, tem uma situação de uma denĂșncia feita por um estudante ao professor”, conclui. 


Por Bahia NotĂ­cias

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